XENIA FRANÇA

“Xenia” é o nome do primeiro disco da cantora de mesmo nome. O álbum teve a produção musical assinada por Lourenço Rebetez e Pipo Pegoraro. A seguir uma resenha de Cleber Facchi e o vídeo de making of do disco, que mostra um pouco do o processo de criação e produção deste trabalho.

“Entre tambores e ambientações tribais que conversam com a música produzida em território africano, versos marcados pela forte religiosidade, flertes com o jazz, diálogos com a cultura Iorubá e confissões intimistas

Xênia França abre as portas do primeiro álbum em carreira solo. Cinco ou mais décadas de referências musicais (e históricas) que se dobram de forma a atender à poesia minuciosa da cantora baiana, como uma madura extensão de tudo aquilo que vem sendo explorado pela artista nos últimos trabalhos como integrante do coletivo paulistano Aláfia.

Obra de enfrentamento, Xenia (2017, Independente) carrega nos versos da inaugural Pra Que Me Chamas? um profundo debate sobre apropriação cultural, detalhando parte do território poético desbravado pela cantora ao longo do disco. “De vez em quando / Um abre a boca / Sem ser oriundo / Para tomar pra si / O estandarte / Da beleza, a luta e o dom / Com um papo / Tão infundo“, canta enquanto a percussão forte ocupa todas as brechas da faixa, transportando França para o mesmo universo de outros representantes do Afro Pop – sejam eles nacionais ou estrangeiros.

A mesma força dos versos se reflete em músicas como Preta Yayá (“Música preta, sou teu instrumento, vim pra te servir“) e, principalmente, Respeitem Meus Cabelos, Brancos, sétima faixa do

disco. Originalmente gravada por Chico César, a canção se transforma de maneira explícita na voz forte de França (“Vamos ser francos / Pois quando um preto fala / O branco cala ou deixa a sala / Com veludo nos tamancos“), lembrando em alguns aspectos a mesma atmosfera e conceito de Don’t Touch My Hair, composição gravada pela norte-americana Solange em A Seat at The Table (2016).

Mesmo a rica base instrumental que garante sustento aos versos de França encanta pelo forte diálogo com a música negra. Arranjos que atravessam a obra de veteranos como John Coltrane e Harbie Hancock, mergulham em elementos do Hip-Hop e R&B e sutilmente pervertem a música pop de forma particular, como se a cantora brincasse com todas as possibilidades em estúdio. Um exercício orientado pela voz presente da cantora, porém, completo pela interferência dos produtores Pipo Pegoraro e Lourenço Rebetez durante toda a execução do registro.

Coesa representação do colorido instrumental que abastece o disco sobrevive na experimental Perfeita Pra Você, oitava música do álbum. Em um intervalo de apenas quatro minutos, batidas po

ntuais abrem passagem para a lenta construção dos arranjos, detalhando sintetizadores futurísticos e guitarras psicodélicas que se conectam diretamente à voz de França, maquiada pelo uso de efeitos eletrônicos e inserções lisérgicas. Um mosaico criativo que ainda abre passagem para o som eletrônico de A Nave ou mesmo o minimalismo confessional de músicas como Breu e Destino.

Raivoso e delicado, intimista e ainda capaz de dialogar com uma parcela maior do público, Xenia parece jogar com as possibilidades a cada novo fragmento de voz. Instantes em que a cantora abraça a obra de novos colaboradores, como a poetisa Roberta Estrela D’Alva, resgata elementos originalmente testadhttps://www.youtube.com/watch?v=XiF-NZyGbbY&feature=youtu.beos como integrante do Aláfia ou mesmo projetos assinados em parceria com diferentes nomes do rap nacional. Da exuberante imagem de capa do disco – uma fotografia de Tomás Arthuzzi com direção artística de Oga Mendonça –, ao evidente cuidado na formação dos versos, uma obra em que Xênia França se revela ao público por completo.” (Cleber Facchi).

 

 

 

 

 

SHINE

Os graus de percepção em “Shine” fazem de sua partilha uma experiência incomum. Da quietude à fulguração, passando pela opacidade, a Cia. Perversos Polimorfos alcança uma dramaturgia de emanações.

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Por meio dela, corpo, luz, sombra, música e palavra constituem relevo para o levantamento exploratório de urgências do presente. A forma implica angulações políticas e existenciais. Sujeito e sociedade premidos por obscurantismo e pós-verdade.
No composto híbrido de dança e teatro, seis autonomeados intérpretes-criadores (três mulheres, três homens) dissolvem noções históricas do drama e da coreografia.

O percurso estético-ideológico trançado pelo diretor Ricardo Gali olha para os 11 anos da companhia. Sacode memórias de práticas e saberes na interface com obras da dramaturga inglesa Sarah Kane e do artista de rua britânico Banksy.
Sucedem-se narrativas imagéticas ou jorros verbais que tratam da subsistência do trabalhador da arte, da intolerância sem fim, da inconsistência da representatividade democrática e até da Mãe Terra, esse corpo celeste sem luz própria que o humano habita, numa sequência de inspiração butô com galhos de árvore.
Súbito, afloram canções de Cyndi Lauper e The Doors sob corporeidade nada pop, abstrata.
A experiência consiste em navegar pelo mapa de sensações geradas no vão do segundo andar da Casa do Povo. É nesse ambiente que o espectador se vê integrado ou à borda da cena por meio de indicações sutis. Coloca-se em movimento interno e externo do mesmo modo que os intérpretes (até Gali e sua assistente Patrícia Bergantin pontuam como atuantes e contrarregras).
A vastidão, o pé-direito alto e os janelões caracterizam a arquitetura modernista de cujo ventre vazio são paridas visualidades potentes.
O ato final promove a cinestesia com esplendor. O legado e a força criativa do presente viram fluxo de complementaridades e dissensos na paisagem sonoro-visual.

A matéria da luz se faz (o “brilho” do título em inglês), desenhada por Aline Santini. E a massa de corpos se descompacta em frames nas presenças pilares de Carolina Canteli, Danielli Mendes, Danilo Patzdorf, Gabriel Tolgyesi, Jerônimo Bittencourt e Josefa Pereira.

 

 

Radio Gana

thumb-radioRadio Gana é uma colaboração entre Lourenço Rebetez e Xênia França em parceria com os demais instrumentistas do grupo, que se alternam permanentemente.

O projeto nasceu em 2013, a partir de encontros semanais no palco subterrâneo do Tatu Bar, em São Paulo, onde a cada apresentação novas músicas ganhavam vida e músicas antigas, novos significados.

O repertório é constituído de composições dos próprios instrumentistas que participam do projeto e de canções pouco conhecidas da música brasileira, selecionadas através de pesquisa de Xênia França e re-arranjadas por Lourenço Rebetez.

http://radiogana.com/

 

Movimento Para Um Homem Só

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“Movimento para um homem só” é um espetáculo de dança da Companhia Perversos Polimorfos, dirigido por Ricardo Gali e interpretado pelos bailarinos Jerônimo Bittencourt e Lucas Delfino.

A trilha sonora do espetáculo é assinada por Lourenço Rebetez e foi produzida em parceria com Zé Godoy no Écoutez Produtora de Som.

O motivo inicial no qual o trabalho se inspira são as intervenções criadas pelo artista plástico inglês Banksy, em parceria com os grafiteiros brasileiros Os Gêmeos, pertencentes à ocupação “Better out than in”, ocorrida em Nova York, outubro de 2013

Escute trechos da música abaixo:

A Hora Amarela

thumb-hora-amarelaPrimeira montagem no Brasil de ‘Through the Yellow Hour’, do dramaturgo norte-americano Adam Rapp, cuja ação se passa em uma Nova York sitiada e arrasada por uma guerra misteriosa e violenta.

A trilha sonora é de Lourenço Rebetez e Zé Godoy.

Texto de Luiz Felipe Reis sobre “A Hora Amarela” para o jornal “O Globo”:

O palco assemelha-se a um bunker. Dentro da caixa preta do teatro foi instalada uma outra caixa, cinzenta, com paredes que emulam chapas de aço. O visual é austero. O efeito, claustrofóbico. Assinado por Daniela Thomas, o cenário é propício ao sufocante texto da peça “Hora amarela”, em cartaz no CCBB, num projeto idealizado por Mônica Torres. Escrita pelo americano Adam Rapp e apresentada pela primeira vez no país, a obra é dirigida por Monique Gardenberg, que cria para o trabalho um jogo de claro e escuro cujo tom dominante é o lusco-fusco, a zona cinzenta do indefinido, que rege tanto a atmosfera de tensão das cenas como a dubiedade e a inconstância dos personagens da trama. Se as duas últimas encenações de Gardenberg – “O inverno da luz vermelha” (2011), também de Rapp, e “O desaparecimento do elefante” (2012) – foram concebidos sob a orientação de termos como solidão e estranhamento, “Hora amarela” instaura “o medo, o sobressalto”, diz a diretora:

– Os personagens vivem sob constante ameaça. Assustados, inseguros.

Encenada em Nova York pela primeira vez em 2012, a obra espelha o embate entre dois mundos, a superfície da terra e o subterrâneo. A encenação só mostra o que há embaixo. Não se vê o que há em cima, apenas se ouve, se imagina. E o que a trilha de Lourenço Rebetez e Zé Godoy indica é que, por lá, o que há é um fim dos tempos militarizado e violento, que torna a superfície um ambiente inóspito e inabitável. Bombas, tiros, entre outros estrondos assustadores, fazem ranger a cena.

– Lá em cima, ou do lado de fora, a vida já não é mais possível – diz Gardenberg. – Só embaixo…

O lado de baixo é onde se desenrola toda a ação da peça, o tal bunker acinzentado que serve de abrigo a uma mulher isolada e acuada, Ellen, interpretada por Deborah Evelyn. Escondida há 52 dias no subsolo, ela faz de tudo para permanecer viva e para não perder a esperança de rever o marido, que desapareceu quando deixou o esconderijo onde viviam na “hora amarela” – momento do dia em que seria seguro ir para o lado de fora. Ledo engano. O exército invasor foi implacável. E é com medo de que aconteça o pior que Ellen não deixa o buraco onde vive, e está sempre sobressaltada, com arma em punho, quando batem à sua porta.

– Todos os personagens que vêm de fora trazem a guerra, a violência e o medo da morte para dentro daquele lugar – diz o ator Emílio de Mello.

Ele interpreta dois personagens, entre eles o professor Hakim, um iraquiano cristão, tradutor de árabe, que teve contato com o marido de Ellen e traz notícias aterradoras do mundo externo.

Na visão da diretora, o texto de Rapp é “um comentário sobre o apocalipse” no mundo onde vivemos – hoje ou num futuro próximo -, “uma espécie de paraíso perdido”.

– A peça apresenta esse choque entre a violência extrema do mundo externo, em guerra, desumanizado, e os resquícios de humanidade, afeto e esperança que tentam resistir e sobreviver no subterrâneo – diz a diretora. – A Helen é uma mulher à beira de perder a humanidade, mas que luta para que isso não aconteça. Ela é uma espécie de resistência a tudo o que se perdeu do lado de fora.

Além de Hakim, Ellen é surpreendida pela chegada de outras personagens, como Maude (Isabel Wilker), uma jovem viciada em drogas que carrega um recém-nascido na mochila, assim como outros, vividos por Darlan Cunha, Daniel Infantini e Daniele do Rosario.

– Se a violência e a destruição são características intrínsecas do ser humano, também existe o outro lado – diz Deborah. – A busca pela vida, a necessidade do outro e do afeto são traços tão primitivos e essenciais quanto essa agressividade. Acho que a Ellen, assim como a peça, traduz, mais do que a violência, a nossa constante luta e busca pela vida.

“Assisti ‘A Hora Amarela’, de Adam Rapp, com Mônica Torres, no Rattlestick Theater, em Nova York, no inverno de 2012. Naquela sala pequena, subterrânea e abarrotada, a gente parecia estar numa extensão do palco: em algum lugar escondido nos escombros de uma cidade destruída, no fim de uma guerra que talvez proibisse qualquer futuro – todos lá, nós, espectadores, num ato comum de resistência.

Saímos da peça pensando em como trazê-la para o Brasil. Desde então, a cada vez que vejo, no horizonte, a poluição paulistana tingindo o céu de amarelo-laranja, penso na peça e, de uma certa forma, na iminência possível do futuro do qual ela trata.

É um futuro sombrio? Talvez. Mas há bastante grandeza em Ellen e na sua tentativa de sobreviver e lutar contra um mundo aterrador. Não sei e, no fundo, pouco importa o que Ellen pensa e o que pensam os inimigos, pouco importam as ideologias. O que importa é querer durar, não querer se encaminhar para o nada sem resistir, isso não é mesquinho: a resiliência é nobre. É por essa razão que a peça me toca tanto.

Não sei mais quem escreveu esta frase, se fui eu ou se foi Isabel Wilker, quando a gente trocava mensagens sobre a peça: ‘fundamentalmente, somos e seremos sempre humanos, capazes de emocionar e comunicar e de resistir – inclusive contra nossas piores invenções. E enquanto pudermos sentir a dor, o amor do outro (e, acrescento, a mordida do desejo), seremos capazes de trransformar a nós mesmos e ao mundo”.

– Contardo Calligaris

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